segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Indo


"Pensava que nós seguíamos caminhos já feitos, mas parece que não os há. O nosso ir faz o caminho." C.S.Lewis



O ir



foi com ele que aprendi


fácil como caminhar


amor é só fazer amar


andar é acordar


estar do lado


sorrir pra quem cantar


chorar com a outra lágrima


descansar, dividir


entregar o ir



-Felipe Vellozo



sábado, 27 de agosto de 2011

Sobre crisântemos e petúnias




Chegando no jardim, fui bem recebido. Apresentaram-me ao jardineiro, mostraram como cuidar das plantas, me ajudaram quando ervas daninhas quase me sufocaram.


Depois de um tempo em meio àquela mistura de cores e aromas, senti que podia fazer algo pelas outras flores. Tive uma reunião com o jardineiro, que, muito cortês, como sempre, ouviu atentamente enquanto me colocava à disposição para ajudar. Como era de seu costume, a princípio ficou quieto, apenas ouviu. Disse-me para esperar, que daria uma resposta na hora em que julgasse conveniente.


Aguardei ansiosamente até que um dia fui convidado a cuidar dos crisântemos. Fui chegando um tanto arredio, mas fui bem recebido. Alegraram-se com a minha presença, foram-me gratos pelos conselhos , por fazer-lhes sombra e encontrar-lhes água. Com o passar do tempo, acabei decobrindo que também podia ser um crisântemo. Afinal, me sentia como eles e, quando faltavam pétalas, emprestavam-me as suas de bom grado.


E, assim, encontrei meu lugar no jardim. Minha maior alegria era ver as sementes brotando, os caules se desenvolvendo, a busca pela luz do sol e pelo alimento na terra. Se algum dia chegariam a virar flor era apenas um detalhe. Não nego minha alegria quando isso acontecia. Ver suas pétalas coloridas refletindo a luz do dia e sentir seu perfume em meio a noite era algo sublime, sem dúvida. No entanto, bom mesmo era ver o desenrolar do processo, acompanhar seu crescimento, sua desesperada busca pela plenitude.


Um dia, porém, fui procurado por alguns que diziam falar da parte do jardineiro. Agradeceram pela dedicação, mas disseram que meus serviços entre os crisântemos não eram mais necessários e que já estava na hora de eu cuidar das petúnias. Dos crisântemos cuidariam eles. Entristeci-me, não posso negar, mas falaram com tanta propriedade que ficou difícil de argumentar.


Mesmo a contragosto, fui tentar cuidar das petúnias. Não era de todo mal, mas não conseguia ficar feliz como ficava entre os crisântemos. As petúnias me receberam bem, mas não me emprestavam suas pétalas. Não consegui me sentir como elas. Fiquei em seu meio um tempo, mas sem conseguir contribuir como fazia em meio a meus antigos amigos.


Finalmente, desapareceu o desejo de colaborar, uma vez que o trabalho não mais me empolgava. As petúnias eram tão importantes quanto os crisântemos, me disseram, e até mesmo concordei. Mas era impossível me misturar a elas. Pelo menos para mim. Ainda me sentia um crisântemo.


Afastei-me daquele jardim. Fiquei a sós com o jardineiro. Mais uma vez, ouviu pacientemente. Contei-lhe que queria conhecer outro jardim e ele prontamente me levou a um que estava próximo. Ao chegar ali, nem precisei falar para que ele entendesse. Apenas olhou com seu ar de compreensão e garantiu:


- Já volto para te mostrar onde ficam os crisântemos.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Aos que me inspiram



Tem coisas na vida que a gente precisa falar. Seria um crime não fazê-lo. Uma delas é dizer aos nossos grandes amigos o quanto os admiramos. Ah... Meus amigos, como os admiro e gostaria de ser um pouco mais como vocês. Pordoem-me por demorar tanto a expressar, mas aí vai...


Admiro a garra e o espírito batalhador da Isa. O jeito bem-humorado de Letícia levar a vida. A inteligência e a concentração da Paty. Pra não mencionar a simpatia com que a Ana trata a todos.


Mas isso é só o começo. Admiro muito a paciência de Fuxi e a forma compreensiva como ele vê as pessoas. Admiro o altruísmo exacerbado da Tia Marta. A poesia que a Babi consegue enxegar em todos os dias. Por incrível que pareça, admiro demais a maneira às vezes doentia e ilógica como o Theo defende seus pontos de vista um tanto singulares.


Admiro demais a boa vontade do Seu Vilsu. A determinação da Rafinha em levar o evangelho a todos e lutar pelo que ela acredita. Até mesmo a amabilidade escondida por trás da marra que Thaisinha leva no rosto (Bebêêêê!!!!)... Admiro a lealdade que Dudu oferece, além de apreciar bastante as longas prosas ao vivo, via telefone ou internet. E igualmente admiro o carinho e a consideração que, por mais que tente esconder, Matheus tem por seus queridos.




Admiro a facilidade que Israel tem de fazer amizade com todos os tipos de pessoa. E também a solicitude de Renatinho e Rafael. Admiro como o Fê sempre consegue fazer graça de tudo sem nunca exagerar. Admiro demais a vontade de aprender do Thiago e como ele não tem vergonha disso. E como eu admiro o jeito como LPM foi destemido e não mediu consequências para ir atrás do que (e de quem) ele queria!


Deixei por último os mais novos. Admiro o fato de Gustavo, apesar da pouca idade, ser um exemplo de cristão, com sua integridade e maturidade. Também é deveras admirável ver que o Vitor não teve vergonha de admitir que precisava mudar e, mais ainda, admiro o quanto ele mudou e continua buscando evoluir. Admiro a vontade do Pit de ajudar todos os seus amigos a experimentarem do amor de Deus e de seus frutos. Admiro Matheus Ximenes porque, de onde a gente menos espera, vêm as maiores surpresas, como a humildade, conversas engraçadas e a facilidade em tratar a todos com igualdade.


É, meus amigos, os admiro mais do que vocês possam amiginar. E muito mais do que uma simples folha de papel pode carregar. Vocês me fazem crescer e ver que o mundo pode ser um lugar melhor, se aprendêssemos a admirar mais intensamente pessoas como vocês.


sábado, 25 de dezembro de 2010

A Carta

Não costumo fazer isso, mas desta vez, vou deixar que dois velhos amigos meus falem por mim... Abaixo vai o que sinto nas palavras de Djavan e Gabriel, O Pensador:


Não vá levar tudo tão a sério
Sentindo que dá, deixa correr
Se souber confiar no seu critério
Nada a temer
Não vá levar tudo tão na boa
Brigue para obter o melhor
Se errar por amor Deus abençoa
Seja você

No que sua crença vacilou
A flor da dúvida se abriu
Vou ler a carta que o Biel mandou
Pra você, lá do Brasil:

"Eles me disseram tanta asneira, disseram só besteira
Feito todo mundo diz.
Eles me disseram que a coleira e um prato de ração
Era tudo o que um cão sempre quis
Eles me trouxeram a ratoeira com um queijo de primeira
Que me, que me pegou pelo nariz
Me deram uma gaiola como casa, amarraram minhas asas
E disseram para eu ser feliz

Mas como eu posso ser feliz num poleiro?
Como eu posso ser feliz sem pular ?
Mas como eu posso ser feliz num viveiro,
Se ninguém pode ser feliz sem voar?

Ah, segurei o meu pranto para transformar em canto
E para meu espanto minha voz desfez os nós
Que me apertavam tanto
E já sem a corda no pescoço, sem as grades na janela
E sem o peso das algemas na mão
Eu encontrei a chave dessa cela
Devorei o meu problema e engoli a solução
Ah, se todo o mundo pudesse saber
Como é fácil viver fora dessa prisão
E descobrisse que a tristeza tem fim
E a felicidade pode ser simples como um aperto de mão

É esse o vírus que eu sugiro que você contraia
Na procura pela cura da loucura,
Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia."

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Livro


Deixo pra trás a velha brochura
Páginas puídas e amareladas
Orelhas nos cantos
Marcas do descuido de mil gerações

Me pegam, me torcem
Me amassam, me dobram
Passo de mão em mão
Cumpro meu destino
Pois não fui feito

Pra ser de um par de olhos só
Venho agora em nova edição
Capa dura e tudo
É comemoração
De quem resistiu ao tempo
E tem sua missão

Páginas alvas com cheirinho de novo
Nenhuma mácula
Nehuma marcação
Esperando que passe logo o tempo
Pra de novo útil eu me sentir

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A fantasia de Norma



O domingo chegara... Estava na hora de usar sua fantasia preferida de dia das bruxas. Dia das bruxas? Não, jamais! Não num domingo! Se fosse terça ou quarta-feira tudo bem, mas num domingo jamais. O nome era inaceitável, mas a fantasia não.

As roupas curtas e cheias de reentrâncias como sempre, afinal gostava de se vestir assim. Pensou por um momento que estavam exageradas, mas os homens não olham pra decotes num domingo. Nos outros dias da semana, tudo bem... Mas se olhassem num domingo é porque eles que estavam errados, isso sim! Porque não se olha com malícia para coxas à mostra num domingo.

Entrou no carro e colocou uma música que edificasse, afinal de contas era domingo. Escondeu o cd da Lady Gaga que tocava a semana toda debaixo do banco, como se fosse uma droga ilícita. Particularmente, íntimo leitor, creio que deveria ser equiparado a tanto.

Voltemos a ela.

Sentou-se no lugar de sempre, deu sorrisinhos e tchauzinhos espevitados, levantou a mão quando todos levantaram e assentiu com a cabeça sempre que o engravatado em sua frente levantava o tom da voz. No envelopezinho timbrado, colocou seu ingresso mensal para a eternidade.

Quando voltou para o estacionamento, tardou para entrar no carro, era só uma questão de tempo até ser abordada.

Pronto.

Rizinhos histéricos, tapinhas no ombro, reprovação das condutas alheias, a bem ensaiada cara de escandalizada ao saber dos detalhes sórdidos. Muito discernimento, muita sabedoria, muita unção... Ouvira essas palavras a vida inteira e já aprendera a usá-las direitinho em cada frase.

Findo o informe, entrou no carro e voltou para casa. O sorriso sumiu, os olhos caíram e as sobrancelhas se uniram. Numa freada, o cd da Lady Gaga apareceu e foi direto para o player. Sua oficina de teatro semanal terminara e fora muito bem mais uma vez. Podia voltar, orgulhosa, para o backstage de seu dia-a-dia, sem se preocupar com sua performance durante os próximos seis dias.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A forma de Virgínia lidar com a vida



Sabia que aquele momento chegaria. Chegou a apegar-se à ilusão de que não, mas sabia que haveria de chegar.



Ele chegaria e não havia outro jeito, tinham de se encarar. Já que seria obrigada a encará-lo, preferiu não encarar a si mesma e evitou os espelhos. Preferiu a procrastinação do encontro com a vergonha de seu próprio rosto. A vida toda fora assim: procurando adiar o inadiável. Por isso metera-se naquela situação. Se ao menos tivesse dito a verdade, o que realmente sentia... se começasse colocando um ponto final, como tantas vezes fora aconselhada pela canção! Mas agora já era tarde.



Às duas e trinta e oito, a campainha tocou. Como quisera atrasar um pouco mais o que tanto temia, arrastou os passos. Abriu a porta e ele entrou sem dizer palavra. O ressentimento enchia os olhos daquele que amou ardentemente tantas vezes.



- Café?



-Com açúcar mascavo.



E só.



Como por instinto, acabou lidando com a situação da única forma que sabia. Enquanto ele apoiava o pires sobre a bancada da cozinha, deixou que seus seios lhe roçassem levemente o ombro. Preparou o olhar cheio de malícia para lançá-lo nos olhos de sua presa. Bastou aquele gesto para que o corpo tomasse as rédeas e deixasse de lado a razão.



Momentos de confusão entre côncavo e convexo... Celebraram, de forma corrompida, o que deveria ser um dom precioso concedido pelo Criador.



Por fim, Virgínia deitou-se exausta enquanto ele abotoava a camisa e saía pela porta confusa. Mais uma vez, adiara o adeus. Até quando? Não importava, ainda o tinha em suas mãos.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

domingo, 5 de setembro de 2010

A peleja de Dorival para entender a Eternidade

-Ah, e outra coisa, aqui não existe tempo.

-Uhn?!

A conversa toda até ali fora surpreendente, mas aquilo já era mais do que um dia imaginara. Nenhuma pergunta ficara sem resposta, tudo aquilo que sempre quisera saber fora esclarecido. Porque as pessoas morrem, porque as pessoas sofrem, porque, afinal de contas, Ele criara as pessoas... Entre muitas outras.

Percebeu em certo momento que não precisava perguntar, era só deixar Ele falar que as respostas vinham. Bem no instante (?) em que ia perguntar quando poderiam se ver de novo, Ele veio com aquela:

-Ah, e outra coisa, aqui não existe tempo.

- Uhn?!

-É, não existe. Não precisamos dele aqui.

Não conseguia esperar a resposta, precisava perguntar:

-Mas, mas... E o pôr-do-sol? – disse lembrando saudoso dos fins de tarde passados em Ilha Grande.

-Você quer ver o pôr-do-sol? – e apareceu uma imensa bola de fogo alaranjada se escondendo por trás do azul infinito.

-Mas não é só isso, é que...

-É, eu sei... Precisei criar o tempo pra vocês porque vocês não conseguem ver as coisas da forma que Eu vejo. Não conseguiam, agora que estão comigo, conseguem. Vocês não saberiam apreciar o pôr-do-sol, o sorriso de uma criança, a beleza de uma amizade, o acúmulo de sabedoria e o prazer de viver ardentes amores, se não fosse pelo tempo.

-Mas e aqui?

-Aqui é a Eternidade. Você já tem noção do que é a Eternidade?

-É um bocado de tempo, né?

E mais horas (?) de conversa se seguiram.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Folha em Branco

Tem horas em que eu daria tudo por uma folha em branco. Não precisava nem estar imaculada, umas manchinhas de café ou uns furinhos de traça dão até um toque de requinte...


Olho pra essa folha, já escrita, quase furada pela borracha que tantas vezes já a apagou, cheia de riscos, rasuras e liquid paper. Como foi que eu deixei ficar assim? Não deixei, aconteceu. Fui escrevendo, escrevendo, sem ter o cuidado de ver o que estava saindo. Acabei me distraindo e quando fui ver já estava assim.

Oxi, que vergonha...


Tomara que ninguém veja... imagina se mamãe vê o que fiz com essa folha!


Amasso, jogo no lixo, mas não adianta, ela continua lá. Me olhando, me desafiando. Sabe que não consigo me livrar dela. Podia rasgar, queimar, acabar com a raça da maldita. Mas é a única que eu tenho, onde mais iria escrever?


Desamasso, aliso com as mãos, passo com ferro. E agora? Surge na mente o desafio de escrever de novo, dessa vez em vermelho-sangue... e não é que a danada tá alvejando? Quem diria... Logo com vermelho-sangue!